A bicicleta foi uma boa invenção

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Temos ideias fixas sobre quem somos. Parece que nossas predileções estão entranhadas em nosso DNA e moldam nossa personalidade. 

Pra mim, a relação conturbada era com o exercício físico. A alimentação vai bem, obrigada. Mas é um segredo não muito bem escondido que eu era praticante do sedentarismo. No máximo, invocando uma piada no estilo “tio do pavê”, o levantamento de garfo. Fugia mesmo e bradava aos quatro cantos que não era minha praia.

Não que isso fosse a regra durante toda a vida. Bem, talvez fosse. Eu me lembro da educação física na escola. E também da alegria quando chovia. Trocava de modalidade esportiva a cada bimestre. 

Fora do terreno escolar, foram várias tentativas de ir a academia, com variações de frequência. De vez em quando, embalava. Tinha uma sensação forte de “agora vai”. 

Não foi. É sem orgulho algum que posso dizer que já paguei um mês inteiro e fui dois dias. Isso pode até ter acontecido mais de uma vez. Deixarei a dúvida no ar.

Ainda ressoava em mim a necessidade, respaldada pela ciência, de que era preciso mudar. Lá fui eu ouvir música dançante em uma academia bem equipada e luzes azuladas, enquanto puxava peso. Surpreendendo a todos, inclusive a mim, essa relação durou mais tempo.

Mas, como todo carnaval tem seu fim, terminamos. Encerrei minha matrícula na academia da forma inteligente depois de pouco mais de um ano. A verdade é que já estávamos afastadas e decidi colocar um ponto final nessa história.

Era preciso virar a página. Eu continuei caminhando. Literalmente. Uma nuvem no céu já era o suficiente para que eu ficasse em casa. Sabe como é… vai que chove, né? 

Ou fazia muito sol. E aí não dá também. Ninguém quer passar tanto calor. Ou então estava escuro demais. Ou claro demais. Melhor deixar pra lá.

Sempre persistia a voz interna: “você precisa fazer algo sobre isso”. Só que saber da importância do exercício e efetivamente praticar são modos distintos do ser humano. Sou bem experiente nisso.

Na filosofia, lugar de todas as dúvidas, encontrei motivações fortes para, literalmente, levantar da cadeira. Ecoavam em mim as frases:

Só é único o conhecimento que nos faz melhores.

A evolução nada mais é do que a depuração do gosto.

Será que posso dizer que Lucia Helena Galvão é minha coach? Nas palavras dela, eu aprendi que devo aprender a gostar daquilo que faz bem. E que ser um bom exemplo era o melhor que podemos fazer pelas pessoas que amamos.

As pessoas que amamos… Se tem algo que desejo profundamente é ajudar os pacientes a terem uma melhor relação com corpo e alcançar um conceito mais holístico da saúde. Soma, psique e nous. Corpo, mente e alma.

Reconheço que o corpo é instrumento de vida e que o movimento é próprio dele. Não fomos feitos para sentar durante oito horas em frente a um computador! Precisava dar a ele que me carrega vida afora àquilo que é justo. 

E, acima de tudo, precisava ser àqueles que me ouviam um exemplo, a mais poderosa forma de ensinamento. A prática é mais poderosa que a palavra não vivida, vazia de significado.

Afinal, seria coerente recomendar algo que eu mesma me recusava a fazer? 

Quando pensava em voltar pra academia, já me estremecia o corpo. Naquele lugar, eu me sinto estranha, não pertencente. E eu já havia tentado essa estratégia. Campbell foi outro professor. “A caverna em que você teme em entrar esconde o tesouro que você busca”.

Enfrente seus medos, garota!

Hora de agir. Procurei vários TEDs sobre a efetividade do exercício físico. Okay, eu sei… um pouco mais de teoria. Poderia ter sido uma nova forma de procrastinação, mas essa história tem um final feliz. Confia em mim.

Encontrei uma palestra que verdadeiramente fez diferença. Pra encurtar a história, a pesquisador recomendava pequenas metas diárias. Fez bastante sentido. Eu costumava estabelecer a meta de 3 a 4 vezes na semana. O dia cheio empurrava o exercício para o dia seguinte, que virava “amanhã eu vou”. 

O ato se repetia até que, naquela semana, seria impossível cumprir a meta. Deixava, então, para a semana seguinte, mais conhecida como “nunca”. 

Agora vamos para a prática, finalmente. A única atividade que não parecia horrível era a tal da bicicleta. Mas já tinha caído na bobagem de comprar uma e acreditar que ia sair andando por aí, sentindo um vento no rosto. Ledo engano. A verdade é que essa brisa me dá mesmo um enorme medo de cair e me quebrar toda. Pode rir, eu deixo.

Próxima ideia…. e se eu comprasse uma bicicleta estacionária na OLX? Eu sei! O risco de ser tornar um cabide realmente caro era alto. Valia o risco. Lá estava ela. Bicicleta usada duas vezes, menos da metade do valor do item novo e ainda sem o frete. 

Foi um decisão rápida. Alguns diriam impulsiva. Fui buscar a bicicleta no silêncio, sem contar pra ninguém. A verdade é que eu sentia certa vergonha, como se isso fosse apenas outra tentativa frustrada. 

Imprimi um calendário para acompanhar a meta de 30 a 40 minutos por dia. Escolhi uma série para acompanhar e fui, pedalando fui.

Hoje, quarenta dias depois de exercício contínuo, posso dizer que somos muito felizes juntas, a magrela e eu. Descubro, a cada dia, que eu gosto sim de exercício. Talvez o problema tenha sido acreditar que meu método seria o mesmo das blogueiras de lifestyle.

Eu não serei crossfiteira. Nem vou malhar com look combinando. Acho lindo, mas não é pra mim. Gosto da liberdade de ter o exercício logo ali, no conforto do lar, com uma camiseta surrada e Netflix. 

Sei que é estranho. Mas parece que eu e o exercício finalmente fizemos as pazes. E ele me mostra cada vez mais sobre  a importância da disciplina, resiliência e empenho do que qualquer palestra.

Eu não serei uma musa fitness. Mas eu posso ser fitness do meu jeito. E quem sabe, daqui um tempo, eu posso afirmar com certeza… agora foi!

 

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