A fábula que nós compramos

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Era uma vez uma rainha fitness. Toda manhã, ela saia do seu castelo encantado para aulas de ginástica na academia bem equipada da realeza. Depois, passava no mercado para encher a despensa de sua própria cozinha, humilde como era, com os quitutes mais saudáveis do reino: barrinhas de cereais e biscoitos do artesão Nasfit.

Provou os leites caríssimos de províncias distantes que vinham a galope no lombo de cavalos.  Os sais dos Andes que temperavam, junto com um pó de cor alegre vindo da exótica Índia, todas as suas refeições dos nobres.

A água cristalina – e alcalina – das fontes francesas, ela misturava com limão e gratidão nas primeiras auroras do dia. As frutinhas secas da China, presente de sábio monge, prometiam que jamais envelheceria.

Enquanto se deleitava nos banquetes, saindo da mesa com um bocado de fome, os conselheiros do castelo disputavam entre si a procura pelo Elixir da Longa Vida e a dieta perfeita. 

Às vezes, a pobre rainha se cansava de toda a confusão gerada e seguia determinada para a casa da Bruxa, devorando todas as guloseimas da estranha construção.

Voltava cheia, arrependida e disposta a seguir, na próxima segunda, a mais nova descoberta de seu time de alquimistas, ávidos por encontrar uma resposta definitiva que sanasse todas as dúvidas daquela jovem.

Afinal, fazia o que era necessário para agradar sua corte e manter sua imagem de mais bela. Os nobres artistas a elogiavam pelos traços finos e era a musa inspiradora de todos os romancistas.

Foi pelo bobo da corte que descobriu que fora enganada. Ele contou a ela que as tais barrinhas e os biscoitos tão inocentes escondiam um bocado de açúcar e aditivos que ninguém naquelas bandas era capaz de pronunciar.

Caíram no descrédito e viraram comida dos súditos, que não ouviram as revelações feitas a vossa majestade.

Disfarçado, Nasfit vestiu outros trajes e inventou em seu laboratório, ouvindo de uma informante do castelo que a proteína estava em alta, uma nova barrinha e um hambúrguer que disse ter vindo direto do futuro. 

Contratou os melhores artistas e trovadores da época para espalhar a novidade. As substâncias alimentícias foram um sucesso esplendoroso.

E mais uma vez, a rainha caiu no conto do vigário.

A história se repetiria por anos até que uma fada encantada em uma viagem ao distante reino encontrasse a jovem princesa, que herdara as preocupações da mãe, e contasse a verdade, quebrando a ilusão criada pelo nefasto Nasfit.

A criatura, mística e sensata, tirou o véu que cobria o reino e mostrou o caminho da iluminação. Estava certa a singela camponesa que, durante todo aquele tempo, havia se dedicado à colheita da sua humilde horta.

Voando pelo mundo, presenciara as faces cheias da beleza voluptuosa do Renascimento e a palidez inspirada pelos sofrimentos do Jovem Werther. As deusas egípcias de olhos bem contornados e o culto aos quadris largos que representavam a fecundidade feminina de Vênus.

Disse também que encontrara os mais diversos tipos de mulheres, todas diferentes e todas com o próprio encanto. A moda, esta a quem tentamos tão cegamente obedecer, mudava a olhos vistos ao passar do tempo. E uma revolução estava prestes a virar a esquina.

Desde então, a princesa, em paz com a comida, viveu feliz para sempre… Ou a medida do possível.

 

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