A feijoada de 600 reais

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Dizem por aí que a feijoada foi criada pelos escravos nas senzalas, que juntavam partes menos nobres e desprezadas do porco com o humilde feijão preto. Não sei quem criou o mito, mas, devo dizer, que caí no conto do vigário. E é provável que você também tenha ouvido a mesma história.

Em uma tentativa de mergulhar nas origens da comida brasileira, descobri que não existe relato do prato antes do século 19. Foi Carlos Alberto Dória, em seu livro “Formação da Culinária Brasileira”, que me alertou:

“Talvez seja mesmo identitário, como gostam de afirmar os cientistas sociais, mas o que há de relevante a respeito dele é a propriedade mágica que tem de reter o passado de escravidão, subvertendo seu sentido dramático”.

Se você não entendeu, eu explico. A feijoada é representativa da cultura brasileira não pela sua etiologia (origem), mas por ser um lenda inventada para não lidar com a história real. As cozinhas africanas e indígenas, que ajudaram a construir a identidade nacional, são agora valorizadas, numa tentativa de ocultar um passado obscuro que não queremos discutir.

Ele continua:

“A chamada miscigenação nada mais foi do que a pacificação histórica de um processo violenta, dramático, que destruiu as unidades culturais iniciais, cuja integridade, porém, o recurso à mitologização preservou no campo simbólico”.

E ainda, para complementar  o soco no estômago:

“Pode-se, assim, imaginar o quanto a feijoada, elevada à alta posição de prato nacional por excelência, como uma verdadeira comunhão à mesa, representou um alívio na tensão cultural criada pela escravidão que dificultava a determinação de um lugar social para os ex-cativos”.

Na minha tradução livre, isso é algo como “somos todos irmãos que juntos comem feijoada… Só que não”.

Comer é cultura, não só no sentido do alimento ser formador de uma ideia de nação, mas também por transparecer aquilo que pensamos como sociedade.

Voltemos a feijoada: fala-se, nas entrelinhas da receita, do racismo estrutural e as narrativas construímos para esconder a violência da escravidão debaixo do tapete.

E eu me pergunto: quem come feijoada? E quem está por trás das panelas? Quem serve e quem é servido?

Enquanto o rico come comida caseira feita por outras pessoas sobra para os pobres comer comida ultraprocessada feita por máquinas.

Afinal, cozinhar exige tempo e o tempo do trabalhador está a venda.

Pagam-se as contas… e o que sobra para alimentação? E, mais ainda, que tipo de alimentação sobra?

Não falo nem da lasanha de microondas, item de luxo para tantos. Eu falo do biscoito recheado de marca desconhecida, da bolacha de água e sal e todos esses produtos feitos de farinha, açúcar, gordura e aditivos. “Alimentos”, com aspas intencionais, extremamente baratos e lucrativos.

Dizem que é barato comer saudável. Barato pra quem?

Barato para quem pode escolher entre fazer uma salada, arroz e feijão, carne e mistura em casa em vez daquela rede de massas da praça de alimentação. Ou em vez do lanche do palhaço feliz ou da coroa de papelão.

Pra grande maioria das pessoas, essas alternativas não estão no leque de opções.

Comer bem não é fácil ainda que nosso endereço seja o Brasil e exista uma grande diversidade de frutas, verduras e legumes.

Comer bem não é fácil justamente porque nosso endereço é o Brasil e aqui reside um dos maiores índice de desigualdade social e concentração de renda do mundo.

Quem pode se dar o luxo de ter escolhas? Ainda que a escolha de uns seja entre a manteiga e a margarina, a escolha de outros é entre o aluguel e a verdura.

Quem tem dinheiro come bem ou, pelo menos, poderia. E ainda pode terceirizar grande parte do processo. A empregada aprende fácil o que é chia, o ponto da quinoa e a temperar com sal rosa do himalaia.

Mas o que ela mesma come em casa?

E quando ela não está, o delivery, com corona ou sem, vem bater na porta. No meio de uma pandemia, descobre-se: cozinhar todo dia nem sempre é a alegria radiante do risoto do final de semana.

Mas, enquanto isso, para pardos e pretos desgastados pelo cotidiano, sujeitos ao revés da saúde e jogados à própria sorte, não há possibilidade de comer da sua “própria” feijoada, no cozinhar ou no delivery, com parcos 600 reais.

Em defesa da economia, entidade aparentemente soberana e acima de vidas, continuamos a ser personagens de uma fábula cruel em uma colônia sem homens livres.

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