A Liga dos Superalimentos

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Na foto, há um céu nublado com centro luminoso e um garotinho uma capa ao vento e óculos, como um super herói.

Chia, alho negro, maca peruana e batata yakon. Goji Berry, blueberry e goldenberry. Spirulina, quinoa e amaranto. Moringa, alfarroba e óleo de coco. Todos eles com a promessa de que seríamos resgatados de um iminente apocalipse.

Eles eram a salvação para qualquer mal. 

Se quiser sentir o efeito da propaganda dos superalimentos, recomendo que seja freelancer em uma loja de produtos naturais em um sábado qualquer, depois do Globo Repórter. 

Qualquer produto que tenha sido anunciado vira campeão de vendas instantâneo. 

Nós não sabemos bem o que fazer com eles na cozinha, mas decoramos toda a sua tabela nutricional. E suas propriedades curativas estão estampadas em capas das bancas de revistas. 

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Eles disputam entre si o pódio. Todo super herói tem certo tempo de estrelato, mas eles mudam a cada temporada. Um mês depois, estampam a embalagem de produtos ultraprocessados, prontos para aliviar a consciência do consumidor.

De grãos andinos a temperos indianos, pinçamos aspectos das culturas de outros países para alcançar a iluminação. Tiramos do contexto. Importamos. O sal rosa do Himalaia torna-se item na mesa do brasileiro, mas não sabemos sequer que sua origem é paquistanesa.

Banana vira potássio. Limão é vitamina C. Cenoura tem betacaroteno.

Reduzimos o todo pela parte na ânsia de compreender o alimento, sem desconfiar do tamanho da nossa ignorância.

Veja bem, qualquer informação extraordinária sobre alimentos comuns pode ser aplicada a qualquer alimento in natura. Basta eleger um de seus compostos e descrever a função de determinada vitamina ou mineral.

Mas contamos a história atravessada.

Essa mania de enaltecer aspectos bioquímicos é também raiz do pensamento que faz com que as pessoas muito bem intencionais, no âmago de desejo por uma vida mais saudável, caiam no mito da “adição de vitaminas” das embalagens de Tang, Nescau e Nesfit.

É isso o que se faz com um rótulo bem montado: a parte frontal da embalagem conta a história que você quer ouvir.

Diga-me a verdade: analisar a comida como uma lupa te faz comer melhor? O excesso de informação não te deixa empanturrado de vez em quando? 

Como cientistas da alimentação, estamos despejando no mundo uma infinidade de conteúdos todos os dias. E estamos saturados. Enquanto isso, a epidemiologia nutricional nos lembra o quão estamos distantes de encontrar verdadeiramente soluções.

A medicalização da comida não nos salvará. Saber exatamente qual alimento é melhor para x, y e z são soluções simplistas. Como uma pílula de vitaminas, nem chegam ao cerne do problema.

Tampouco, embora possamos encontram nela boas respostas, a alimentação não dá conta de todas as perguntas.

Assim como os componentes de uma determinada fruta, tudo é interligado. Nosso estilo de vida sedentário, a comida mais processada, os trabalhos cansativos e as grandes cidades. Toda essa modernidade líquida e isolamento nos roubam o nosso tempo do cozinhar, desgastam nossos relações afetivas e nos tomam o local de prioridade.

A saúde fica “pra quando der”. E aí, queremos que ela more em uma cura pontual. Invocamos a liga dos superalimentos.

Mas nenhum alimento isolado te fará mais alerta, mais ativo, mais feliz, mais desperto, mais magro, mais forte. Ou menos estressado, menos triste, abatido. 

Às vezes, quando estamos cansados, só precisamos dormir.

Precisamos saber reconhecer as múltiplas origens dos nossos vilões. E parar de depositar todas nossas fichas em um só mocinho.

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