A verdade nua e crua sobre Rawvana et. al

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Não foi ela a primeira a fugir do movimento. Mas seu caso, pra mim, foi um dos piores. Não pelos problemas de saúde em si. Mas sua conduta nas redes sociais após o estouro acidental de sua verdadeira alimentação abre um debate sobre ética na Internet, saúde pública e levanta dúvidas quanto ao veganismo.

Rawvana, o nome artístico pela qual era conhecida Yovana Mendonza, publicava vídeos em que enaltece seu próprio bem-estar e convence, através de vídeos bem editados, seus seguidores a adotarem o mesmo lifestyle que ela e sentir na pele os benefícios.

Tudo isso tinha uma preço, claro. Seus ebooks e cursos eram vendidos a valores salgados. E, claro, consumidos por pessoas que se inspiravam na energia, bem-estar e felicidade que transpareciam em fotos do Instagram.

Tudo era resultado de uma ótima estratégia de Marketing. Nos bastidores, sentia-se mesmo cada vez mais debilitada com sintomas que iam de perda de força até ausência de menstruação.

O problema nunca foi deixar de ser vegana. O problema foi mentir para os seguidores e ainda lucrar com isso. E, a cereja do bolo, ainda conduzir pessoas a adotarem a mesma alimentação que a fazia tão mal.

Comia ela apenas comida crua, alimentação que foi se modificando ao longo da sua trajetória nas redes com a inclusão de alimentos cozidos. Essa, aliás, é a origem de seu apelido nas redes sociais. Raw, em inglês, significa cru. Foi a dieta a base de plantas, segundo alegava, que teria a livrado de uma vida sem significados regada a bebidas e festas.

A ciência nos explica que comer alimentos cozidos foi o que mais possibilitou o desenvolvimento do cérebro que temos hoje, ávido por energia. Comer alimentos cozidos permite aumentar nossa ingestão calórica sem ter que ficar, literalmente, o dia inteiro com a boca cheia. Perde-se o volume de água e a energia presente nos alimentos é concentrada. 

Não é muito difícil obter um exemplo prático de como isso funciona. É só observar animais primatas que se alimentam apenas de plantas cruas. 

O volume e a quantidade de alimento é muito maior proporcionalmente ao que nós, humanos, consumidores de comida cozida comemos. Isso não significa, é claro, negar que alimentos crus conservem algumas vantagem. Mas por que limitar em um ou outro?

Parece estranho ter que dizer isso: nós temos a habilidade incrível de sermos onívoros. Isso significa que podemos comer uma vasta gama de alimentos. Um dia, a cenoura pode ir ralada na salada. No outro, cozida na sopa. Se isso não é uma vantagem evolutiva, eu não sei o que é.

A dieta exclusivamente crua pode mesmo reservar percalços. O excesso de fibras, que não são abrandadas pelo cozimento, e a necessidade de um consumo bem maior de alimentos para garantir o aporte calórico necessário pode sim diminuir a absorção de diversos minerais e vitaminas necessários a nossa saúde. Ou seja, provocar um efeito inverso que se esperava. Em vez de mais saúde, aumentam-se as deficiências nutricional. Mesmo que seja a base de comidinha da terra.

O problema, repito, nunca foi deixar de ser vegana. Isso, claro, na minha opinião. Estamos aqui falando de desonestidade e a construção de uma falsa imagem. Nesse contexto, a verdade não seria prejudicial para o movimento em prol do veganismo. Era antes prejudicial ao seu negócio online altamente lucrativo.

Afinal, uma vez construído um império digital baseado no fato de ser vegana e saudável, o que sobra para sua empresa quando você não é mais nenhum dos dois? Acaba-se com a imagem e o ganha pão de uma só vez.

Não se sabe dizer há quanto tempo Mendonza comia carne ou sofre pelos problemas de saúde nos bastidores. Qualquer previsão que eu faça seria mera suposição da minha parte. O que todos podemos ver é que a vida real foi trazida a tona após um lapso de uma amiga youtuber, onde Rawvana tenta, nitidamente, esconder o prato.

Não deu. Justificativas foram dadas e estão disponíveis em um longo vídeo de 30 minutos para quem quiser escutar a sua versão da história.

Nenhuma explicação, por mais sensata que seja neste momento, ou mesmo vulnerável, serve para responder aos anseios de diversos seguidores. Por que, afinal, esse assunto não veio a tona antes? Por que, se havia tantos danos a saúde, os vídeos continuaram a ser produzidos? Onde está a responsabilidade dessa e de outros produtores de conteúdo?

Não me convenceu, nem comoveu. Espero realmente que todos os problemas de saúde sejam sanados. Mas o risco para saúde pública de youtubers e instagrammers é evidente em um caso como estes. Rawvana enriqueceu a base de mentiras online. Que então devolva o dinheiro de quem por ela foi enganado. Afinal, saúde é uma preocupação genuína dos “viewers”, que tiveram acesso apenas ao lado editado da vida.

Isso reverbera e cai na conta de quem se preocupa com a veracidade e faz um trabalho sério online. Se você olhar os vídeos que ainda estão disponíveis no canal, verá uma menina jovem, magra, esse padrão estético almejado por tantas pessoas, promovendo o veganismo como forma de perder peso, ter energia de sobra e curar vícios. Em inglês e espanhol.  “Conheça esse programa e seja como eu”. O eu que não aparece é a “vegana” que come peixe, frequenta vários médicos e tem a saúde debilitada.

Isso cai na conta de quem depois? Profissionais de saúde que estudam e entendem o funcionamento do corpo humano, através da fisiologia, anatomia e bioquímica, ao contrário da blogueira. E não só do ponto de vista biológico. Essas novas figuras midiáticas acabam por transformar, para pior, a relação com a alimentação.

Quem vai querer ouvir um nutricionista que prega equilíbrio, quando existem várias seitas online que nos tacham como desatualizados por não engrossar o caldo daqueles que afirmam que tal alimento é milagroso, você pode e vai secar 5kgs em uma semana com tal método e que existem “verdades que seu nutricionista não quer que você saiba”?

Isso tudo é mero marketing. O problema é que temos uma sociedade cada vez mais confusa e os índices de obesidade que continuam a crescer, embora existe mais e mais informação (ou desinformação) circulando. Seria lindo acreditar que soluções mágicas existem. Mas se existisse, todos já conheceríamos o santo graal. Inclusive eu mesma gostaria de conhecer o milagre de perto.

A promessa de emagrecer rápido, fácil e sem esforço é uma mentira quentinha. Afinal, por que agendar uma consulta com um nutricionista se existe uma via rápida? Tem um monte de homem trincado na Internet que promete resultado sem ter que fazer quase nada, uma notícia tão confortável quanto falsa.

De tudo isso, eu digo: não brinque com a sua saúde e não seja convencido pela estética. Corpo “belo” e fotos modificadas não são sinônimos de corpo saudável.

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