Admirável Mundo Gordo

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Em um mundo ocidental, onde há grande abundância de calorias, não necessariamente nutritivas, manter um corpo magro torna-se um valor por si só.

Revestido em um discurso biomédico, a necessidade de um emagrecimento chega ao extremo, passando a caracterizar transtornos alimentares e de imagem. A vítima não consegue ter a percepção real do corpo e da disfunção do comer. A busca por um ideal de beleza e de controle, literalmente, esgota. Há de se controlar a boca em um mundo que anuncia dois sanduíches pelo preço de um.

 Como sociedade, estamos caindo nos extremos, entre a obesidade e a obsessão com o corpo magro, desejando encontrar o caminho do meio. Quais são os caminhos que precisamos percorrer? Quanto tempo ainda iremos patinar, vendo estarrecidos números que só aumentam?

 A obesidade é tanto uma doença, como um fator de risco. Li tantas vezes que essa frase já se tornou um mantra. Como evitar, sem pensar o tempo todo em comida? Sem forçar episódios de compulsão com os gatilhos da restrição?

 Seria mesmo um exercício de disciplina, autocontrole e vontade?

 Aldous Huxley imaginou um mundo longe da feiura e do envelhecimento. Em reinos de modernidade líquida, na qual o Instagram divide seu espaço em segundos com modelos e propaganda de Delivery, cunhou-se que é feio ser gordo.

 Queremos consertar a imagem. Calculamos os cardápios e as semanas para atingir a meta em uma campanha de produtividade. Como se o ser humano fosse máquina e a comida mera combustível, soma de macro e micromoléculas. Ambos sem nenhum significado além dos números.

 Cuidamos tanto do que se come, com listas de “permitidos” e “proibidos”, que esquecemos que quem se senta a mesa não são os planejadores. Senta-se para o jantar um universo a parte, com sentimentos e experiências totalmente únicos e inimagináveis.

 Grudado ao corpo que queremos tanto diminuir, existe uma cabeça que também pensa suas próprias ideias sobre o comer. Que teve um dia difícil. Que sente o coração apertar por um dor que não é física. Que sente frio na barriga. Que engole a raiva. Dá com a língua entre os dentes. Sente um frio na espinha.  Deixa escapar um suspiro. Tem a cabeça nas nuvens.

Todas essas expressões nos indicam uma verdade sutil nas entrelinhas. O corpo é um meio de vida, nosso intermédio entre o intangível, fruto da subjetividade, e a manifestação física. O corpo não é o fim. Mas é só através dele que podemos alcançar voos mais altos.

 

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