Então, conheci um homem que comia carne uma vez por mês. Não que fosse por escolha. Cabia no orçamento apenas no data do pagamento. No dia seguinte, tudo se repetiria.

Arroz e feijão. Almoço, jantar e mesmo café da manhã.

No livros, aos quais posso dedicar tempo para ler, não existe nenhuma recomendação que transponha a orçamento limitado. Escrevi no receituário o que manda a cartilha. Três porções de leite e seus derivados. Três porções de frutas. O papel aceita tudo. Infelizmente, o supermercado não. 

Cartão ou dinheiro? Débito ou crédito?

Penso em metáforas acessíveis. Falar sobre aterosclerose não vai funcionar. Aqui o jargão médico torna-se inacessível. Diria que desnecessário. Eu não digo por não reconhecer a capacidade de compreensão do outro. Mas porque eu preciso estabelecer um diálogo compreensível.

Se o paciente não me entender, eu falhei na missão. Procuro as palavras certas. Levo o equilíbrio aonde consigo. Aperto os cintos em algum lugar para poder investir em outro. 

Menos de cinco minutos depois, meus pensamentos estão absolutamente em névoa. Como podemos ser tão bobos a ponto de repetir incessantemente que a alimentação saudável é acessível?

“Troca inteligente: olha quantas frutas você pode comprar com o valor de um lanche daquela rede famosa de fast-food!”. Dissemos, impressionados em como parecemos espertos. 

“O arroz integral rende mais e tem mais fibras”. Enquanto um salário mínimo sustenta 5 bocas. Através dessas frases batidas, somos denunciados do nosso privilégio e incapacidade de enxergar o que existe por trás das paredes de nossa academia.

Sem senso de realidade. Abduzimos pelo senso comum de acreditar que todas as pessoas podem fazer escolhas. 

Não posso lidar sozinha com o falta de acesso a alimentação justa, adequada, variada. Mas posso ter a humildade de reconhecer que ela é escassa. Olhar para o paciente como um ser humano que não é igual a mim. 

Se eu adentrei nessas paredes onde o conhecimento é científico, todo texto é justificado e a referência é conforme ABNT, preciso me despir desse manto de teorias, invisível e pretensioso, para saber ouvir.

Nem tudo é como nos livros.

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