“Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão sobre a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada”.

A primeira vez que ouvi a frase de Naomi Wolf… Pensei que fosse exagerada. Uma dieta não pode ser sobre a obediência feminina. Pensei outra vez… E se você, assim como eu, também teve a mesma percepção, diga-me: quanto tempo mulheres lindas, inteligentes e independentes perdem trocando figurinha sobre calorias e dietas?

Tempo esse em que poderíamos estudar mais, cuidar do jardim e, quem sabe, armar uma revolução.

Nosso paladar é norteado, antes que pelo gosto, pelo corpo. Falo aqui de corpo como estética, não saúde. Antes de colocar comida na boca, a pergunta quase sempre é: isso engorda? Aí o acompanhamento das batatinhas não é mais o prazer. É a vergonha, a culpa e a sensação de “eu não deveria comer isso”. 

A gente brinca que a vida da mulher é pagar boleto e tentar emagrecer. Mas a gente sabe, ou pelo menos sente, que essa eterna dívida com a balança é um martírio.

Repetimos essas frases prontas sem pensar muito antes. É só uma piada. Mas é essa mesma a relação que queremos ter com os alimentos e com o meu próprio corpo?

Emagrecer é quase um trabalho em tempo integral. E se existe algo comum entre nós é a tal insatisfação corporal. Somos ensinadas a comer observando – e temendo – a silhueta.

Esse papo parece que vem de berço. “Desse jeito não vai arrumar marido”, diziam nossas mães e avós. Nosso corpo é visto como objeto. Objeto de decoração para o prazer masculino.

É… em 2019, parece que ainda precisamos ser socialmente validadas por homem. Continua a ressoar a ideia que nosso papel social é arrumar um casamento e procriar.

O mais irônico é que, na ânsia de nos tornar aquilo que é vendido como sensual, podemos nos tornar mesmo seres apáticos, justamente porque estamos prestando mais atenção em “como parecemos” do que “como sentimos”.

Relações amorosos saudáveis não se dão por causa do corpo, mas através dele. É muito curioso que a maioria de nós não se sente bem na própria pele. Essa que, literalmente, abraça a nossa alma e nos permite uma experiência de vida única.

Como podemos não amar nossos corpos? Esses que nos sustentam, apesar dos pesares. Apesar das opiniões dos infelizes que insistem em apontar defeitos.

Aliás, promover defeitos é um ótimo negócio. Enquanto uns choram, alguns vendem lenços. Nada melhor do que enxergar nos cabelos brancos e olheiras problemas que se consertam com produtos.

A solução vem de potes, bálsamos e emulsões. Panaceia contra todo mal. Mal estético. De uma estética que é sempre um ideal impossível de alcançar. Todo o mal reside em ser feia. Ou gorda. Parece até que não há defeito pior numa mulher.

Você lembra quando o bolo de festa deixa de significar comemoração depois da infância? Na adolescência,  já representa perigo. Na vida adulta, tentação. Proibido! Imagina? Um segundo na boca e a vida toda no quadril!

Estamos todas em estado de alerta.

Tenha suas regras alimentares. Aquilo que funciona pra você, que te forneça uma relação saudável (física, mental e social) com o que você come. Mas de vez em quando. Coma com gosto, com prazer. Permita-se comer como em 1420, antes da descoberta das calorias. Ano em que a imagem de uma mulher voluptuosa era também a bela.

De vez em quando, apenas se jogue na experiência sensorial, social e afetiva. De vez em quando, apenas coma, garota! E sempre, sempre ocupe teu corpo.

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