Cozinha Confidencial

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Eu sempre soube que ia gostar do livro Cozinha Confidencial de Anthony Bourdain. Talvez eu já tenha começado a primeira página com a disponibilidade para amá-lo. Sabia pelo texto de seu programa Sem reservas, veiculado por um canal desconhecido da TV brasileira.

Conheci Bourdain como viajante e degustador. O texto que narrava suas descobertas era sempre ácido, divertido e inspirador. Muito provavelmente ele não gostaria de ouvir o último adjetivo. Mas ouvir suas palavras me dava vontade de fazer uma mala e partir para provar o desconhecido.

Quando soube do seu falecimento, aos 61 anos, estava numa sala de aula, olhando sorrateiramente as notícias do dia. Engoli seco o suicídio.

Como alguém tão brilhante escolha encerrar sua jornada?

Caminhei para o carro e algo impensável aconteceu. Não pude controlar o choro contido de perder alguém que jamais conheci, mas foi uma referência para mim. Não sei explicar exatamente do que. Meu jeito de escrever não é parecido com o dele. E antes de virar a última página, já estava convencida de que meu lugar é na cozinha caseira.

Não tenho a postura firme que cabe ao comandante de um equipe de cozinha e não aguentaria o ciclo de planejamento, execução, limpeza e todas as partes  intermediárias. Não aguentaria um turno em uma de suas cozinhas. Consigo até imaginar o corpo dolorido pelo lavar os pratos, cortes e queimaduras.

Também não aguentaria a pressão do tempo e da “troca de afetos”.

Bourdain me parece sincero. E, pra ser honesta, talvez eu não gostasse tanto dele pessoalmente. Parte pelos vícios e pelos modos aparentemente rudes. A pose de badboy cai bem em num videoclipe da MTV ou um filme. Na vida real, eu viraria o olho e acharia tudo um tanto quanto ultrajante.

A cozinha profissional não para amadores. Mas para os que comparecem e persistem. Bourdain traz a tona os segredos por trás dos salões, revelando um mundo que ainda era intocado. 

Anotei mentalmente suas dicas sobre os cardápios. O peixe da segunda e o brunch. Ainda que seja vegetariana, criaturas pelas quais os chefs não tem tanto apreço.

Anotei mentalmente a onipresença da manteiga e me conformei com o fato de que eu não irei cozinhar com um chef.

Por um caminho tortuoso, o garoto rebelde das escolas particulares e verões na França virou uma celebridade da TV. Tudo começando por uma ostra e uma obstinação invejável.

É tudo sobre o amor pela comida? Anthony, que não entendia nada sobre os humanos, escreveu um livro sobre pessoas. Nenhum cozinheiro, pirata ou não, toca o barco sozinho. E por trás de todo chef de sucesso nos Estados Unidos, existe um equipe, dentro e fora da cozinha, que habla espanhol.

É, Bourdain. Talvez eu também gostasse de você no final das contas.

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