Façamos um jogo: não pense em chocolate. Não pense no crocante de uma bolacha recheada na sua boca. Não pense em batata frita salpicada com sal e aquele molho cremoso de alho. Não pense também em pizza quentinha, com queijo derretendo, puxando, do seu sabor preferido…

Pensou em tudo isso? É bem possível.

Faz um tempo, mas todos esses alimentos foram parar em um famigerado “Dia do Lixo”. Não sei ao certo o primeiro a cunhar o termo. A essa altura do campeonato, com sua popularização, ficaria até difícil rastrear a origem.

Eis que o termo é usado e reafirmado todos os dias por aqueles que buscam uma alimentação mais “fitness”.

Mas vamos aqui esmiuçar essa famosa expressão.

Lixo. Dentro os tantos significados do Aurélio, há a definição : “resíduos provenientes de atividades domésticas, industriais, comerciais etc. que não prestam e são jogados fora; bagaço”.

Lixo, então, é aquilo que não tem mais utilidade, que sobra. Então, descartamos. Lotamos lixeiras e colocamos em algum lugar ser recolhido.

Então… por que usamos deliberadamente a palavra para nos referirmos a comida? Um dia na semana, nosso corpo transforma-se em lixeira? Quando foi que comida, apta ao consumo do ponto de vista higiênico-sanitário, passou a receber tal título?

Eu sei, eu sei. O Guia Alimentar para População Brasileira, atualizado em 2014, recomenda evitar o consumo dos ultraprocessados. De fato, eles não acrescentam muito em termos nutricionais. Na contramão, sobram gorduras, sódio, açúcar e calorias vazias que não servem para alimentar.

Mas são alimentos gostosos e que podemos,ocasionalmente,incorporar em um contexto de alimentação saudável. Sem demonizar nada, paramos com a louca obsessão por tudo aquilo que “engorda” e “faz mal”.

E vale sempre lembrar que ter comida na mesa, especialmente esses “lixos”, ainda é privilégio. Estranha essa nossa relação com a comida que chama de resíduo aquilo que podemos comer e outros, muitos outros, não podem.

Estranho essa nossa relação que coloca nosso corpo como lixeira.

Dar a esses alimentos um caráter de proibidos é também dar a eles mais foco e atenção do que precisam. Sabe aquela história… proibido é mais gostoso?

É também medida certa para que pensemos neles mais do que o necessário. É esse o efeito rebote da falta. O excesso acompanha o hambúrguer. Porque, afinal, já sabemos o roteiro: segunda-feira a dieta retorna.

Somos um geração repleta de gente “fitness” demais vivendo na restrição. Tudo em prol de “enfiar o pé na jaca feliz” no esperado e especial dia do lixo.

Recorra a liberdade, autonomia e responsabilidade para abolir esses conceitos. Assim, e somente assim, não precisaremos de um dia da semana para nos empanturrar de tudo quanto é tipo de guloseima.

E repete o mantra: “comida não é lixo”.

2 ideias sobre “Dia do lixo?

    1. Esse conceito dos carboidratos precisam melhor explorado. Porque ultimamente parece que as pessoas falam como se mandioca (carboidrato, nativo e tradicionalmente consumido no Brasil) fosse o mesmo que açúcar de mesa (carboidrato também). Disse isso pra ilustrar: existem carboidratos e carboidratos. Simples, com calorias vazias, como você disse, e complexos, como vitaminas e que imprimem muito sobre nosso hábito alimentar. Carboidratos não são a base dos alimentos ricos em calorias vazias. Isso é uma generalização errônea. Não é correto colocar alimentos fontes de carboidratos como se fossem um grupo semelhante. Mas a base do texto não é sobre o alimento em si… Mas como esses papéis que atribuímos a eles, como mocinhos e vilões, não tem contribuído para o debate em saúde pública. As pessoas não pararam de consumir calorias vazias. E agora somado a isso, temos uma relação péssima com a comida. Longe desses conceitos genéricos e títulos sem sentido, poderíamos desenvolver uma relação melhor com a comida, de autoresponsabilidade, consciência e autonomia, que acredito que pode ser muito mais duradoura e saudável do que ao taxar a comida como lixo e estabelecer um dia pro seu consumo exagerado. Obrigada pela contribuição e pela visita.

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