Hecho en Bolivia

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Foto com céu azul ao fundo e montanhas. Do lado direito, uma linha ferroviária em perspectiva.

Ainda em Porto Quijarro, um alerta. Na cidade que faz fronteira com o Brasil e onde pegaríamos o trem rumo a Santa Cruz de la Serra, paramos em um restaurante. Tínhamos que matar um tempo e a fome até o embarque. A dona do estabelecimento, brasileira, nos deixou de sobreaviso. Não lembro as palavras exatas, mas era algo como “aproveitem para comer agora”. As condições de higiene do país em que estávamos adentrando guardaria, segundo ela, certa indisposição para a culinária.

Servia pratos bolivianos e brasileiros. Pique a la Macho com estrogonofe, um prato russo tão amado que já fincou raízes. O primeiro poderia ser descrito como uma montanha de embutidos, carne, molho, ovos, pimentão e batata frita. Escolhi legumes. 

Como cortesia da casa, recebemos sopa de Maní. Foi meu primeiro e único golpe na Bolívia. Veja bem: maní, em espanhol, significa amendoim. A sopa, como pesquisei depois, é feita com amendoim escaldado, pedaços de frango e legumes. Pela ingenuidade, somada ao receio de rejeitar a gentileza, acreditei quando foi dito que não havia qualquer tipo de carne na receita. 

Só para depois encontrar, ao fundo da tigela, um ossinho que parecia fazer piada dessa vegetariana com mais de dez anos de experiência.

No trem, a experiência gastronômica se resumiu ao queijo quente mais caro da história no vagão restaurante e desfile dos muitos ambulantes que vendiam “pollo” (frango), em versões diferentes. 

Em Santa Cruz de la Serra, o almoço trouxe um suco esbranquiçado. A surpresa foi saber que era um “jugo de linaza”. Um toque de limão e muito açúcar. Esse último, aliás, foi um traço que notei em todas as bebidas que consumo por lá. O refrigerante, nos sabores papaia e pera, tinham cores fluorescentes. Nenhuma fruta conseguiria aquele tom de laranja ou amarelo que pareciam brilhar no escuro de tão luminosas.

Mesmo o Mocochinchi, bebida feita de pêssego, era marcado por um gosto intenso de bala de caramelo. 

Na mesa, aprendi que primeiro teríamos uma entrada, mas não seria uma salada. Era a sopa que iniciava a refeição. Quinoa, fideo (macarrão) ou pollo eram as opções mais comuns. 

Sinto que a trilha sonora que marcou a viagem foi Shakira. A cantora colombiana era onipresente. Talvez justamente por ser a cantora latina de maior sucesso internacional.

De volta ao transporte, agora esperamos um ônibus que nos levaria a Sucre, capital constitucional da Bolívia. Na rodoviária, ambulantes vendiam cuñapes e gelatina. Cunãpes, provavelmente na minha definição simplista, um equivalente local do pão de queijo e da chipa.

Mas foi o segundo que me intrigou. Gelatina nunca me pareceu algo muito atrativo. Por que afinal as pessoas consumiam aquilo? Minha resposta mais contundente foi olhar àqueles que comiam e perceber, numa pesquisa um tanto quanto superficial, o problema de dentição daqueles que estavam ali.

Esse foi um traço notável ao longo da viagem. O abandono das populações mais tradicionais, deitadas no chão dos terminais ou vivendo nas ruas, estendendo a mão em troca de algumas moedas. 

A mudança de paisagem indicava que estamos ganhando em altitude. Sucre, açúcar em francês, é uma cidade acolhedora. Os chocolates eram uma atração à parte. Amargo, ao leite, com quinoa, com coca, com amendoim, recheados. Voltaria por eles, pelo clima frio e arquitetura colonial.

Em Sucre, descobrimos as belas frutas, os sacos de batatas fritas a quem me converti, o mundos dos supermercados e o mingau com maçã e quinoa no café da manhã do hostel.

As padarias que vendiam cada unidade de pão a um boliviano foram outro achado ainda nas ruas de Santa Cruz e seguiram como opção até o fim da viagem. A farinha tinha certo gosto de alvejante, provavelmente pelos produtos usados no refinamento do trigo. Mas eram uma opção barata e viável.

De Sucre partimos para Uyuni, a cidade com maior número de turistas por metro quadrado. A comida “continental” dominava as ruas. Eram pizzarias, massas e restaurantes com cardápio árabe, italianos e made in USA. Senti um clima de “pra gringo comer”.

Entre as poucas opções com apelo local, estavam o Pique a lo Macho (ele de novo) e os cortes de lhama e alpaca que, mesmo se comesse carne, não teriam me apetecido.

Os carrinhos vendiam castanhas, frutas e feijões secos. E sanduíches, por vezes com abacate, eram vendidos em pequenos contêineres. Arrisquei um desses frutos e posso dizer que o resultado não foi muito feliz.

A pizza, as sopas e a batata frita fizeram parte do cardápio do deserto. No tour, a água era escassa, mas o refrigerante estava sempre presente. E o vinho em um refeição com macarrão ao sugo. O frio do deserto contribui para aumentar o conforto da comida simples, um surpresa agradável.

As folhas de coca ajudavam a lidar com a altitude nas subidas e descidas do 4×4 que nos transportava pela areia e pelo sal. Mais do que os pratos, a locação das refeições era o ponto alto dos almoços.

De volta a Uyuni, a parada foi na Minute Man. Sim, outra pizzaria. O serviço rápido, o bom preço e as fatias generosas fizeram valer a refeição acompanhada de limonada. Exceto pelo cookie. Esse era dispensável.

Na mesma noite, partimos para La Paz com uma chegada às quatro da manhã na estação fria. Foi só uma parada para outro transporte, dessa vez rumo a Isla del Sol. 

A pizza de novo representou a partilha da ceia de Natal com um simpático casal de São Paulo. 

Como recomendava a propaganda de um restaurante de Campo Grande, minha cidade natal, tomamos um pisco sour às margens do lago Titicaca. No cardápio, as massas dividiam espaço com a truta e outros peixes. A espera foi tanto que o almoço teve que ser embalado para viagem a La Paz. 

A sobremesa ficou, mas os talheres vieram como um estranho souvenir.

Nas ruas de La Paz, pipocavam as opções de cafés, restaurantes e lanchonetes, ainda que limitadas pelo período pós Natal. Felizmente, encontramos as práticas e deliciosas empanadas de queijo.

Em um restaurante perto do Mercado das bruxas, minha opção foi de um maravilhoso quinotto, com método de preparo parecido com o risoto. Esse dia de glória antecede os dias de luta.

Com o esgotamento dos recursos, era hora de voltar às terras brasiliensis, carregando na bagagem a vontade de replicar vários dos pratos da Bolívia.

Ao juntar as pitadas, percebo que o medo atribuído a higiene precária reflete a visão que o brasileiro tem de seu vizinho, um país pobre e relegado no nosso imaginário como inferior. 

Daí o estranhamento com a escolha do destino: de todos os países, por quê este, repleto de miséria?

Descobrir a Bolívia e sua comida, ainda que pela superfície do que é oferecido a uma turista vegetariana, foi como um tapa em todas as frases preconceituosas que ouvi.

Como no Brasil, há o abandono, desigualdade social e riquezas desconhecidas. Há turistas mais informados do que nós, hermanos. Holandeses, neozelandês, israelenses. Em euro ou em dólar, a América Latina se apresenta como destino barato e exótico.

O “pollo”, que toma diversas formas, é uma marca da proteína de baixo custo dos países e regiões pobres. Talvez isso seja simbolizado pela rede de fast food nacional, Copacabana, que em grandes letreiros anuncia seu frango frito.

O processamento de alimentos chegou em massa e as lojas estão repletas de biscoitos e outras guloseimas que oferecem praticidade, açúcar e gordura. Mas lá estão também as feiras e a resistência de uma refeição servida no meio da estrada por uma chola em suas vestimentas tradicionais e cabelo trançado.

As mudanças no cenário refletem quanta diversidade existe nesse pequeno país. Os contrastes. O deserto e a imensidão de água do Titicaca. O branco de sal e a areia. As lagoas em suas diversas cores. As viscachas, lhamas e alpacas e a confusão de prédios de La Paz com seus teleféricos. O calor do dia, o frio da noite e os cumes onde há neve na maior parte do ano. 

Para além das imagens, vale a pena conhecer a Bolívia pelo paladar.

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