Maratonista da Beleza Padrão

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Correu. E quando estava cansado, correu mais um pouco. Era perseguido pelo fantasma da feiura. Não desejava ele um fôlego de atleta, uma resistência de Pheidíppides. Nada disso o importava, senão o desejo de ser desejado.

Em sua maratona, saiu em disparado rumo ao cirurgião plástico que consertaria seus traços de nascença. A natureza por certo havia errado. E somente um bisturi humano seria capaz de o livrar da maldição.

É inegável de que haviam outros na disputa, assombradas pelo mesmo mal. Cada vez que se aproximavam da linha de chegada, ela se movimentava mais 42 km. Esta beleza idealizada nunca era conquistada. Sequer havia pódio.

Cada participante recebia uma medalha de participação por contribuir para a euforia sem vitória. Eram heróis da cirurgia plástica, procedimentos estéticos, indústria do emagrecimento e da insatisfação crônica. Eram muitos, na verdade. Estar ali já era um valor social muito celebrado.

Visível era o cansaço estampado em alguns. Abandonavam a pista. É insano! É raso! A beleza era uma juíza inconstante. A moda, sua fiel escudeira, mudava tanto que era difícil acompanhar seus passos.

Apenas um rosto envelhecido denunciava o quanto aquilo tudo era passageiro. Ser desejado por todos: é mesmo possível? É sequer interessante? Que experiência rasa seria. Agradar a todos e a ninguém em profundidade, nem mesmo a si mesmo.

Podemos viver na expectativa da recepção alheia? E se ela nunca chegar?

Essa imagem do sucesso é algo que sempre nos escapa. Valor pessoal não é algo a ser creditado inteiramente àquilo que é externo. Isso apenas nos fragiliza.

Que bom é poder ter um corpo belo, saudável, funcional! Mas que seja um instrumento para que possamos viver de fato uma vida plena. E não um valor em si.

Alguém na plateia comenta a estranheza de tudo aquilo. É uma época materialista essa! Gostamos de acumular. Mas não pelas coisas em si. Gostamos do que representam. Nesse sentido, não somos em absoluto materialistas: queremos o que se vende como uma vida feliz, sem nem sequer nos perguntarmos o que isso significa.

Na verdade, ter o corpo padrão, do jeito como manda o figurino, significa ser amado, aceito, celebrado.

Mas se alguém é amado e ama por algo tão fugaz, então esse não é um sentimento genuíno. É apenas um interesse transitório e condicionado.

Teremos ao nosso lado sempre esse sentimento de que não somos belos o suficiente. E o tempo, esse sempre nos acompanhará. Ele vence a todos.

Estará conosco para nos lembrar de que nada disso é permanente. Mesmo se a obsessão pela estética seja eterna enquanto dure.

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