Pão nosso

Categorias Uncategorised

Quando você acorda, lá está ele, majestoso, te esperando. O pão é um alimento que foi reduzido a categoria de vilão. Mas, certamente, por quase toda a sua vida, fez parte do café da manhã.

Na hora do almoço, é provável que você veja no cardápio de qualquer restaurante, seja o self service do shopping ou no PF do centro, arroz e feijão. Integral ou branco, carioca ou preto, estão um na companhia do outro. A mais famosa dupla tupiniquim está presente na mesa de todos e não faz distinção de cor, credo ou classe social.

Reconhece-nos como brasileiros no prato. Comida também é identidade. “Eu como cultura”, já disse há algum tempo o chef Alex Atala. Comida não serve apenas como soma de nutrientes. Tem significado, construído ao longo da nossa história, como indivíduos ou nação.

Digo sempre: falta humanas na nutrição. Comer é um ato biológico? Sim! Mas excede nosso corpo físico. E são múltiplas suas facetas.

Aliás, nada no ser humano é totalmente biológico. Mesmo o sexo, o instinto que guia a perpetuação da espécie, tem uma sutileza que revela nossa subjetividade. Impresso em nosso DNA, em algum local que desconheço, deve estar mapeado esse princípio que guia nossa continuidade. Mas, querida leitora ou leitor, nos apaixonamos por qualquer um?

Assim é na alimentação. Somos onívoros e podemos nos alimentar de uma gama extensa de alimentos. Provavelmente, uma das características que mais tem contribuído para nossa existência. Mas não comemos tudo.

Comida é prazer. É me deliciar com uma colherada do doce de leite do meu vô, sentindo, além do sabor, seu carinho. É saber, com plena convicção, que por mais que eu tente, a minha sopa nunca ficará igual a do meu pai. Lembrar da panqueca de massa grossa da minha mãe, que, mesmo contra as regras da gastronomia, são as melhores que comi.

Cozinhar é um afetivo, uma experiência sensorial. Os aromas de uma refeição podem trazer a tona lembranças e sentimentos. Para contemplar, é preciso estar atento.

Com tantas informações científicas, esquecemos quanto amor, que não pode jamais ser mensurado, existe envolvido no processo de alimentar alguém. Um alimento é mais do que a soma entre suas partes. Muito mais do que aquilo que pode ser visto, pesado, engolido.

Que não sejamos tolos de olhar apenas o alimento em sua composição química. É preciso ir além: enxergar o que eles representam em nossas vidas, seja como indivíduos e parte de coletividades, e, principalmente, a intenção de quem cozinha ou faz uma oferta generosa.

Às vezes, é preciso mesmo mudar. Incorporar em nossa rotina alguns alimentos novos, limitar o consumo de outros conhecidos. Mas sem nunca esquecer que cozinhar, ou mesmo compartilhar uma refeição, é um ato de cuidado.

Sejamos gratos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *