Pra qualquer fome

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Acredite, eu entendo. Ifood, Uber Eats. Ainda mais com cupom de desconto. Devo dizer que a turma do Marketing dessas empresas também está de parabéns. Um email mais que criativo que o outro. Juntos e shallow now? Uma salva de palmas!

Vejo essas ferramentas como respostas para uma demanda. É mais fácil mesmo pedir comida. Eliminamos até mesmo a etapa de ligação. É mais fácil pedir direto pelo aplicativo. É difícil é fazer comida. Exige tempo, tudo que não temos. 

Não temos porque vendemos nossas horas, minutos e segundos. Nem são mais as oito horas por dia. É que o expediente nunca termina. Ele vem com a gente no bolso. No mesmo aparelho em que usamos para pedir o delivery.

Também não temos desejo. É o cansaço. É o trabalho que fica muito longe de casa. A casa que se torna extensão do trabalho. É a vontade de maratonar um pouco mais na Netflix pra poder, pelo menos enquanto durar o episódio, se conectar com uma realidade alternativa. 

Eu entendo que você queira aquilo que é mais prático, rápido e gostoso. O dia foi pesado. Eu entendo o “eu mereço”, “não quero pensar muito nisso”.

Depois de um dia inteiro resolvendo pepino para outras pessoas, tudo que eu não quero é uma salada. Quero me é perder no sofá. Mas, no doce lar, tem alerta do Gmail que pede por uma resposta que, recentemente, adquiriu status de urgência. 

E a mulher que cuida da roupa, das crianças, do marido folgado e dependente. Ainda mora no coração da família brasileira a crença de que são obrigações femininas. 

Cozinhar dá trabalho. Não só na hora, mas pelo planejamento de antes. No lavar das louças depois. Quem tem tempo? Tempo é dinheiro. Que eu vendo como trabalho. E trabalhar eu quero menos. 

A indústria, essa espertinha, ocupa bem esse espaço. Pra que repensar em divisão de tarefas? 

Não precisa, boba! Deixa que eu faço a sopa! 

Deixa a lasanha no forno (microondas, claro), enquanto você dá banho nas crianças. Sobremesa? Veja que delícia o lançamento dessa torta mousse de chocolate. Do congelador para mesa em 15 minutos!

Pra que descascar a abóbora?

Autonomia na cozinha, numa época que a sociedade está tão dependente das grandes empresas, é revolucionária. Para que a gente volte para a cozinha, homens e mulheres, precisamos primeiro redefinir papéis de gênero. Afinal, cozinha é lugar de gente que se alimenta. 

O cuidado com a alimentação é um dos mais íntimos e fundamentais para o ser humano. Do contrário, daremos continuidade na experiência desastroso de terceirizar esse papel para a indústria da alimentação.

Só que antes disso, precisaremos abordar cada vez mais misoginia, machismo, construção de masculinidades, educação. É repensar inteiramente no nosso modo de vida e prioridades.

Cozinhar é tornar-se produtor, em vez de mero consumidor. É assumir um importante papel de protagonismo na nossa própria saúde. É autonomia para o cuidado.

Quem diria… Mas, em 2019, cozinhar também é um ato de resistência.

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