Resenha: Street Food – América Latina

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Não veio com um aviso. Quando abri a Netflix, estava lá sem qualquer alarde. Não houve sequer tempo para longas antecipações. Assisti os seis episódios no mesmo dia. A linguagem soa familiar e estranha. Até recentemente, e admito com certa vergonha, é algo que nunca havia pensado em aprender. Francês, italiano eram línguas que pareciam mais sedutoras. 

“Street Food” retrata obviamente comidas de rua. A nova temporada aborda agora a América Latina. Rápida e barata, vemos na tela a comida popular em sua instância mais pura. Sem a pompa dos restaurantes estrelados, é em torno deste alimento que as pessoas reais gravitam. 

A cozinha representa a cultura, mas também escancara as culturas que resolvemos valorizar. A maioria de nós neste país tropical sabe elencar, por baixa, uns cinco pratos italianos. 

Mas o que os nossos vizinhos da América Latina comem mesmo? 

Fazemos viagens para a França através dos nomes elaborados de cortes que fazemos todos os dias. Dizem que o país é o berço da gastronomia. Soa quase como se fosse o primeiro lugar em que o homem descobriu a interação do fogo com o alimento.

A história é, definitivamente, eurocêntrica. Até hoje, nos contam histórias sobre como os portugueses “descobriram” o Brasil como se as “Índias” fossem pedaços de terra sem qualquer ser humano. Como se essa América não tivesse sido saqueada por invasores.

Definir nomes, ou escrever os livros de história, não deveria eleger os donos do jogo. Até porque, ainda que isso tenha mudado ao longo das muitas trocas comerciais ao longo da história, os cozinheiros – chamados de chefs ou não – sempre usaram foram capazes de usar o que tem em mãos. E eles existem no mundo todo.

O tomate americano na terra árida da Itália torna-se mais carnudo. A batata andina imersa em óleo quente torna-se “french”.Mas todas essas interações revelam que, na aldeia global, ninguém pode reclamar para si o selo de autenticidade. É o óleo africano frita o acarajé. 

As similaridades com a “comida daqui” aparece em quase todos os episódios. No combinado peruano, uma cozinha em ascensão, e algo tão próximo que traduz como PF colombiano. 

Os rellenos de batata da Bolívia? Lembram a democrática coxinha. O choripan da Argentina já invadiu as areias nas praias de Floripa. O México, com suas múltiplas salsas, me lembra que o Tio Sam anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato: nós gostamos de apimentar. E a baiana que faz sentir no frescor do mar em seu rerestaurante a resistência de um povo de misturas desiguais.

Uma série sobre a América Latina é uma série sobre identificação. Não, minto. Para mim, é sobre me sentir representada. Ainda que o Brasil não compartilhe o mesmo idioma, os traços, a diversidade, a cultura guiada por mulheres fortes está lá. Eu também me vi na tela.

Pode ser auto redenção, mas, para ser honesta, a comida latina está na minha mesa todos os dias. Porque eu sou, em bom português, latina e orgulhosa.

Corri para a cozinha para fazer uma Fugazetta, para provar um  pedaço do país vizinho onde jamais pisei os pés. Uma pizza coberta de cebola e muito, muito queijo. Depois de prova, só posso chegar a uma conclusão. América Latina, eu estava olhando para o outro lado do oceano Atlântico quase o tempo todo. Mas eu estou aqui agora e nada me parece mais rico. Estou pronta para mais!

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