Responsabilidade de fala

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Todo caso de conduta irresponsável na Internet levanta questões sobre liberdades individuais. As mídias sociais transformaram ainda mais a relação de comunicação mediada. Se antes, haviam grandes e poucos emissores de conteúdo, hoje existem muito.

Virou novo clichê, mas cada uma com um smartphone na mão e um sinal de Wifi pode ter audiência. Cada celular é um palanque. Mas, diferente das profissões regularizadas, a web ainda é um espaço mais ou menos desregulado.

Na outra ponta, temos um receptor, que não é tela em branco. As pessoas não absorvem puro e simplesmente as informações. E teoricamente, existe um filtro chamado senso crítico para as informações que ali estão. Certo?

Errado. Quando compramos esses discursos, esquecemos de uma parcela da população bastante vulnerável a notícias impressionantes que ainda não possuem repertório, mas tem acesso de sobra ao conteúdo online.

Embora nem sempre seja verdade, é comum acreditar que todos as pessoas que leem uma determinada blogueira sejam adultos autônomos, livres e esclarecidos, bem formados, capazes de tomar decisões e lidar com suas consequências. Mas não.

Particularmente quando falamos de imagem, a faixa de público que mais se encanta com o tipo de conteúdo veiculado por “blogueiras” fitness, baseado em perseguir estética corporal, por ter na imagem corporal um fonte componente para a aceitação social é justamente o adolescente.

Ah, a adolescência! Essa fase esquisita da vida de tantas mudanças e inconstâncias onde o pertencimento a algum grupo é tão importante.

De fato, não há responsabilidade criminal para muitas das besteiras ditas. Mas deve haver sempre responsabilidade social. Nisso, ninguém pode ser ausentar. Todos temos responsabilidade sobre o que escrevemos e dizemos.

Isso, obviamente, não significa que podemos ter controle sobre o que as pessoas fazem com as informações que obtém. Nunca o é porque o receptor, como dito, não é tela em branco. Traz consigo repertório. A pessoa que recebe “a dica amiga” não vive em Marte. Mas isso não exime ninguém da responsabilidade por aquilo que diz. É sempre via de mão dupla.

Precisamos sim pensar que algum público lerá. E pode ser um ser humano vulnerável, em formação, com senso crítico ainda não totalmente desenvolvido que não saberá avaliar a qualidade da informação. E não, não jogue mais essa culpa na conta dos pais e responsáveis.

Primeiro pela própria relação familiar em si, que pode não ser assim tão próxima dos filhos (uma das características do tal estilo de vida contemporâneo). Depois pela incapacidade dos responsáveis de saberem o que seus filhos tem acesso a Internet. Não dá pra controlar tudo o tempo todo. E, se você se lembra da sua própria adolescência, deve saber disso. E o terceiro e talvez mais importante componente seja a própria relação do adolescente com o apelo estético que é comum na idade.

Para o adolescente, a imagem formatada tem muito mais apelo do que o profissional de saúde que não promete emagrecimento. No meio desse caldo, existe um conflito da fase: o imediatismo. Tudo é pra já.  

E se é pra falar dessa questão, precisamos também lembrar que muito da autoimagem é resultado hereditário. Particularmente na relação de mãe e filhas, surgem muitas questões não resolvidas com o corpo. É fisiológico que haja um ganho de 20% na pré-adolescência. É uma reserva de energia para as transformações que logo virão. Essa é uma informações que muitos pais não tem. O que abre espaço para muitas preocupações desnecessários, salvo em caso de erro alimentar de fato.

Muitas vezes são esses adultos, supostamente autônomos, independentes e responsáveis por suas ações, que impõem a adolescente uma dieta de revista para um emagrecimento forçado. Isso foge do alcance e controle de uma blogueira: a relação com o corpo não resolvida, a adolescência como fase de imediatismo, de uma sociedade pautada na estética. Mas é justamente esse contexto geral que imprime tanta responsabilidade social na fala de blogueiros.

Todos, sem exceção, temos a obrigação de parar de disseminar informações sem embasamento na Internet. Seja lá se for um grande público ou só a tia no Whatsapp.

Porque sim, é responsabilidade do emissor a mensagem que emite. Mesmo que você tenha recebido uma informação errônea para frente,você se torna coautor e ajudou na distribuição de uma informação incorreta.

Por uma sociedade mais verdadeira, torne-se responsável por aquilo que comunicas.

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