Tem caroço nesse angu

Categorias Uncategorised

Em uma panela grande, várias espigas de milho cozidas.

Estava eu lendo sobre como as indústrias da alimentação pagam os cientistas para desenvolverem pesquisas que promovam seus produtos.

Explico: junta-se a fome com a vontade de comer. O pesquisador precisa de dinheiro para conduzir sua pesquisa e também sobreviver. As grandes indústrias tem o capital, mas, como um negócio visa lucro, querem também promover seus produtos.

O jantar não vem grátis. Uma empresa investe com expectativa de retorno. Dando nome aos bois, alguns exemplos: Coca Cola, Nestlé, Hershey’s, Mars, Kelloggs, Mc Donald’s.

Sua pesquisa é meu novo slogan.

A Coca Cola investiu em uma rede de cientistas conhecida como Rede Global de Balanço Energético. A premissa é que, não importa o que você coma, ou quanta Coca-Cola beba, desde que tenha equilibre as contas de gasto energético e consumo de calorias.

A transnacional não pagou só a conta. Tinha influência sobre a escolha dos pesquisadores, opinava sobre as hipóteses do estudo e revisou artigos.

A pesquisa em Nutrição é jovem e frágil. A manipulação é fácil porque é praticamente impossível isolar os fatores nutricionais.

Na mesma semana, nos stories do canal de jornalismo independente O Joio e o Trigo, que separa as fake das news no mundo da alimentação, uma fala de Márcia Terra, nutricionista e membro da direção da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban), chamou a minha atenção:

“Eu posso emagrecer no Mc Donald’s.”

É possível entrar em déficit calórico em qualquer rede de fast food e, portanto, emagrecer. Mas seria recomendado? Aliás, qual é a força de uma frases vinda de uma nutricionista? 

Soa quase que como uma autorização aos meus ouvidos. 

O movimento legítimo por uma alimentação mais flexível e comportamental pode ser facilmente absorvido como um discurso conveniente para indústria. Essas mesmas grandes companhias que causam impacto real na qualidade das dietas tradicionais com padrões de ocidentais cheias de calorias vazias, sódio, gordura saturada e açúcar.

E aí toda culpa é repassada para o indivíduo.

É um neoliberalismo da pseudocomida. Cria-se um ambiente alimentar extremamente negativo, com excesso de ofertas de 2 sanduíches por 14 reais e refrigerante com refil limitado. Mas, se você engordar, apenas lamentamos!

A história que não te contam é que esses produtos são todos projetados com ultrasabor e características que levam de fato ao exagero.

Apropria-se, através da propaganda, de discursos progressistas. “A indústria pop”, eu diria, apoia causas sociais e infiltra-se em grupos estigmatizados.

Por que, me pergunto, uma marca de refrigerantes teria interesse em colocar sua comunicação associada ao movimento de positividade corporal?

Por que eventos de alimentação com participação da Sban tem como pauta a aproximação da indústria?

Já olhou as propagandas recentes de fast food? Os cabelos coloridos, a diversidade do elenco: tudo para passar uma imagem de modernidade, alinhada com as crenças do jovem geração Y, e uma comunicação informal.

Um hambúrguer vegano. Batata frita e sorvete no combo por menos de 20 reais. Pra quê cozinhar mesmo?

Não seria essa uma forma de que as empresas de ultraprocessados, que roubam o espaço das preparações culinárias, abandonem sua cota de responsabilidade sobre o crescimento da obesidade?

As indústrias te servem uma comida nada nutritiva e super calórica. Os produtos são desenvolvidos para serem super palatáveis e viciantes do tipo “impossível comer um só”. Mas a obesidade não é um problema dessas transnacionais. Aliás, se for um problema… é de ordem particular: a pessoa engorda porque quer.

Afinal, você só precisa de um mero déficit calórico, mas pode gastar suas “cartas” no Méqui.

Alguém tem interesse nessa história. E não é pela sua saúde.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *